quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

engomadoria

 


Descaminhando te escuto chiar.

Procuro-te.

Na perdição

uma música.

Parece me levar.

Acho que te vejo.

Engomas meu desejo.

Enfeitas minha saudade

mas o teu vai e vem,

não dá conta do meu

desalinho,

que é tão

tão profundo,

que sequer o vapor

suaviza meu desvario.

Sigo então sem esmero,

um bocado amarrotada,

em companhia dos meus (des)fados

já há muito  

(des)encontrados.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Moldura

Recebo um presente enrolado numa folha de jornal.
O presente?
Um cartaz de um congresso esquecido.
Nele há letras brancas que emergem de um profundo desenho azul.
O mesmo azul do céu que ora me acolhe, ora me desmonta.
O cartaz passa a ter bordas e agora ocupa a parede da entrada da minha casa,
aquela onde há um espelho que costuma guardar meus segredos.
O jornal velho?
Mesmo amassado, agora tem contornos negros.
Será presente para quem me disse ainda criança
que desuso emoldurado é arte para quem
adora brincar de esquecer,
e se esquece,
rabisca, desenha, monta, escreve, canta, filma,
até desaparecer.

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Avenida aurora, n° 33

Reflexos de luzes
desenham
um encontro
em vidros de
venezianas fechadas.
O horizonte,
testemunho da palavra,
pede entrada,
mas a porta está trancada.
Vozes da rua
indagam
se no parapeito da janela
um casal se detém.
Os raios amarelados do entardecer
dizem:
"esqueçam,
hoje,
o que há aqui dentro,
ninguém vê".

sexta-feira, 3 de março de 2017

Carnaval

Suas pernas,
pedaços de tempo,
sobem em
nítido embaraço.
Seus pés,
tempo em pedaços,
dançam ao acaso.
Seus olhos,
despedaçados de tempo,
encontram
amor
num amarelo espaço.

Folhas secas

Folhas secas a farfalhar.

Penso nas distâncias
que fazem escapar os sons.
Entre tantos ditos
me imagino a correr, correr, correr
até chegar às folhas secas.
Toco-as.
Balançam.
Escuto-as.
Falam de silêncios esquecidos.
Agora,
eu
só
caminho.
caminho,
caminho.

domingo, 21 de agosto de 2016

Flávia

"Longe, lá de longe, onde toda a beleza do mundo se esconde,
mande para ontem uma voz que se expanda e suspenda esse instante.
Cante para hoje" palavras que vêm de um tempo distante.
Fale agora que muito além do ontem, existe uma ponte de candura bem marcante.
Diga que nela anda uma moça de olhos fulgurantes,
que voa num céu de mil e cem cores.
Cante que quando há medo e fortes, fortes dores,
ela é vista a pular em nuvens de mil e e cem amores.
Fale que carrega um lenço bem rendado
para o caso de lágrimas e também tremores.
Diga que a encontrei no passado de mil e cem horizontes,
onde demos as mãos sob uma árvore de onde pendem quarenta,
sim quarenta flores.

Balanço

A sombra que desenha um vai e vem 
é amiga da menina que balança
num imaginário e descontínuo trem. 
Roçam, roçam, no chão de terra batida, os pés da moça,
que anunciam, nova estação.
Pequeno arrebite e o balanço pede:
"pare não".
Cabelos precisam de desalinhos
para seguir sem sofreguidão.