sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O jardim de infância que Vinícius viu (por Vinícius Ladeira)

Hoje fui levar minha sobrinha ao jardim de infância. Aquele foi um momento mágico pra mim. E acho que pra ela também. Deve ter sido a primeira vez na vida em que andara no banco da frente. Calma, explico; meu carro possui só dois bancos! Fomos conversando por todo o caminho, eu tentando entrar no mundo dela, instigando sua imaginação pra fazer com que seus pensamentos saiam da caixinha, tentando criar nossa própria lógica. Sempre falamos coisas que, aos olhos leigos, não fazem muito sentido, mas no nosso mundo tudo faz! Assim, sempre pergunto pra ela se ela tomou banho na piscina de parede, ou se a tia Juliana ja tinha estudado prédio ou buzina na escola. O legal é que a conversa rende, e muito...
Naquela tarde seca de Brasilia, em pleno mês de agosto, entrei com ela naquele universo, mãozinhas dadas, mochila rosa nas minhas costas, e me deparei com uma pequena parte do céu. Isso mesmo, olhei aqueles pequenos 'capetinhas' correndo vivamente por todos os lados e só conseguia pensar que ali estava uma sociedade, que dali poucos anos, eles estariam no comando. Juízes, professores, médicos, engenheiros, todos ali, diante dos meus olhos, cada um podendo seguir o caminho que bem desejar.. cada pequeno ser humano com todas as possibilidades e escolhas ainda por vir, vivendo a inocência de uma idade em que nada mais importa senão contar pra tia que veio no banco da frente do carro, ou dividir com o coleguinha que nadou na piscina de parede aquela manha.
Vi ali tanto potencial de mudanças profundas nas atitudes, nas crenças.. quase uma folha em branco, do tamanho de um jardim de infância inteiro e alguém pronto para escrever a historia que bem desejar. A nós? Cabe apenas tentar conservar o mundo pra chegada deles em breve. Seremos os idosos que demandarão cuidados. Nós, no auge da nossa arrogância atual com os mais velhos, julgando conhecer mais e melhor as novas tecnologias, rapidamente seremos obsoletos aos olhos daqueles pequenos. Sai daquele lugar pensativo. Mas feliz por ter passado alguns minutos, tempo suficiente pra que uma parte de mim se misturasse aos demais para formarem um único e mágico, jardim de infância.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Chuva de molhar


Morros enlaçados por arbustos quase magros.

O tom era de ocre pincelado por gados a reboque.

Se o minério escondido pudesse falar

diria que por ali os deuses estavam a espraiar

um tal modo de olhar

que não deixava acelerar.

A moça que naquela terra nunca estivera

pôs-se num canto a chorar.

E aconteceu da chuva realmente molhar.

sábado, 12 de outubro de 2013

Encriançando

Não demorou muito e, depois que virei mãe, vi que ou eu tirava o pó da criança que fui ou a coisa ia ficar feia pro meu lado. Só ela, só essa minha criança, conseguiria se entender bem (bem de verdade) com a outra criança que tinha aparecido na minha vida. Quanto mais a adulta se calava e ouvia essa criança que ainda sussurra uma vozinha de vez em quando no meu ouvido, melhor ficávamos, eu e minha filha. Quando eu perdia a bússola de mim criança, meu passo de mãe desandava, deixando que regras, conselhos, exemplos dos outros, esse tipo de coisa toda viesse martirizar. Mas, quando, cansada de razão, a criança de dentro de mim ganhava espaço, essa sabia tudo do meu bebê e, se não soubesse, inventava, coloria, recortava. Essa criança de dentro entendia a minha de fora, como uma velha conhecida; sabia do que ela mais precisava; me dizia o que fazer com ela e, especialmente, o que fazer dela; sabia-lhe os medos e as alegrias, tinha a sua mesma lógica, seu tempo sem pressa, seu egoísmo perdoado. Aprendi: só o adulto que ainda tem sua criança  próxima de si vive em paz (paz de verdade) com uma outra criança ao seu lado. Podem reparar.
Mas não foi só a minha criança que foi resgatada quando me talhei mãe. Uma coisa ainda mais importante parece ter vindo de brinde: o resgate, no meu olhar, da criança de todos os outros.
Rolar a barra do FB essa semana e ir vendo as fotinhas dos amigos e conhecidos quando crianças me fez lembrar disso que saquei ao chegar tão perto de uma criança quanto uma mãe chega: ser criança não é só o começo de todo mundo; é a essência de todo mundo. Curioso, explorador, divertido, sincero, transparente, cheio de amor pra trocar, inocente, alegre. Muito prazer. Sou eu. É você. Podemos acreditar.
Muito Poliana?
Provável, mas, pra mim, hoje, dentro do mais mal-humorado dos homens, da mais babaca das chefes, do mais egoísta vizinho, da colega competitiva, do amigo sempre sacaninha e até da sogra maldosa etc. etc. etc. (bota etc. nisso), nada mais, nada menos, do que uma criança guardada no fígado, tocando o terror, fazendo birra, gritando por atenção, perdida, desorientada, apavorada, irritada, com medo dos monstros do seu quarto, cansada sem conseguir tirar o seu cochilo, com saudade da mãe que foi trabalhar, implorando um colo. Sim, acho que é verdade: a maior parte de nós, com os anos, só fica mais alta mesmo. De essencial, pouco muda.
E o que se faz com uma criança fora do prumo, histérica? Respira, respira, respira. Depois, olhos nos olhos, a gente faz o que deve fazer, mas ninguém, em sã consciência, é capaz de ficar seriamente magoado com aquela criança pelo seu mau comportamento por mais de cinco minutos. Dá raiva, dá um monte de coisas, mas, por não poder haver essa responsabilização toda, tudo passa muito rápido.
Não quero dizer que em relação a um adulto a gente não pode/deve responsabilizá-lo pelo "mau comportamento". É lógico. Aliás, é essa mesmo a linha divisória: a possibilidade de um adulto ser responsabilizado por seus atos e uma criança não - e não há coisa mais xarope do que os eternos Peter Pans, irresponsáveis e irresponsabilizados, que estão por aí.
Mas, olhando as carinhas sapecas do meu timeline dessa semana, aquelas estampas das crianças todas que fomos e ainda somos, penso que estamos sempre a levar a sério demais uns aos outros e a nós próprios. Responsabilizamo-nos e responsabilizamos demais, nos minando de tanta culpa, nos matando de tanta mágoa. É tiro pra tudo quanto é lado, rompimento, uma confusão danada.
Fico pensando que se a gente conseguisse, logo ali depois do respira-respira-respira, espiar numa brechinha do tempo a criança contrariada que está por trás desse olhar duro e trejeito arrogante do adulto na nossa frente, o que nos arrebatará é a compaixão - leveza também, de troco.
Sem falar na vontade de, conformados com o brinquedo que vai ter que ser mesmo dividido (não tem jeito), continuar a brincadeira. 



sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Traços no chão


Silencioso traçado em branco concentrado.

Formas solitárias com cores gregárias.

O amarelo deu nó no laranja do dragão.

E assim nasceu a imensidão.

Menino, conta pra mim por que desenha no chão?

É que sou lagarto de lápis na mão.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Medo


Nas nuvens me penduro.
O vento balança meu corpo.
Não posso cair porque o chão me diz muitos nãos.
Se alguém me colocasse asas,
voava sem medo de cair.
Mas foi o tal vão, livre então,
que fez do medo um jeito são,
pra poder voar e cair,
com e sem chão.


sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Mundo padrão Fifa - parte 2


Não, não vou falar de novo de futebol nem de política. Tenho que ter semacol, né.

Na verdade, desde o primeiro post "Mundo padrão Fifa", a intenção era falar do que vem agora. A história da copa, das manifestações e tal era pra constar só como introdução do assunto, mas como pensamento é trem desembestado solto, saiu como saiu. Teve que vir então a parte 2.

O meu assunto é a perfeição. Tenho pensado muito nisso ultimamente, tenho me flagrado falando muito disso ultimamente - imperfeitamente, claro.

Escrever aqui é uma forma, então, de organizar um pouco os pensamentos que vêm pipocando na minha cabeça a respeito dessa história toda e, assim, quem sabe, ir avançando nos meus imperfeitos.  

Só avançando, nunca escapando, e aqui já meto o pé na porta: se há experiência humana, ela é imperfeita; se há experiência humana, ele tenta se melhorar o tempo todo (nós tentamos melhorá-la).

É entre esses dois vetores que tudo debaixo do sol parece acontecer e, até aí, vá lá. Nosso contrato nesse mundo foi mesmo de adesão e as cartas mais importantes vieram dadas.

Então, tudo é imperfeito e a vida parece ser essa tensão permanente entre a resignação e a irresignação que se pode ter quanto a isso.

Aceitar o primeiro despressuriza que é uma beleza, mas também pode estagnar a um ponto de morte. O segundo costuma tirar a paz, mas também catapulta muita coisa importante.

Onde, quando, no quê e quanto você bota o pé de um lado ou de outro?

Não sei você exatamente, mas acho que a calibragem atual dessa tensão anda muito mal feita: nega-se, a todo custo, a imperfeição da vida; estamos obcecados pela perfeição, numa esquizofrenia coletiva para a qual melhor expressão não poderia ter me surgido ultimamente que "padrão Fifa".

É a vida "padrão Fifa". Reconhece? Claro. Certeza que você também está nessa roleta, jogando e sendo jogado. Tudo tem que ser muito limpo, organizado, planejado, catalogado, previsto, especialmente seguro, controlado... Que mais? Ah, a lista é longa.

Aliás, pausa: fiquei de cara ontem com tudo o que tive que ler e preencher para me inscrever no sorteio de ingresso pra Copa. Sou eu que tô muito antiga e reclamona, ou tem papel demais embalando essa balinha?

Volto.  

Sujeito em extinção é esse que consegue, em pleno 2013, não ter entrado ainda em surto, ou que não esteja muito do infeliz consigo mesmo,  pelo o quê, em sua vida, tenha lhe saído/esteja saindo feio, torto, gordo, sujo,  incompleto. Aliás, pior que isso, talvez o que mais horrorize geral hoje em dia sejam os “mais ou menos”: famílias que não sejam de margarina (mas funcionam), casais que não sejam exatamente tarados um pelo outro (mas funcionam), uma carreira que nunca estoure (mas funciona). Flagrante disto é o que fizemos com a palavra “medíocre”. Etimologicamente significa apenas algo correspondente à média, mas , no uso corrente, se refere sempre ao que é ruim, quando não péssimo.

E o que eu tô chamando de funcionar? O que traz satisfação. Aquilo em relação a quê você não deixa de ver imperfeições, mas que escuta aquela vozinha interna a dizer que está bom, que é legal; especialmente, que você está curtindo, apesar de qualquer coisa.

É a vozinha que é muito resignada e quer pouco da vida? Tem covardia aí ou tem sabedoria? Não sei. Isso só você, mais ninguém no mundo, pode responder. Mas dou um chute na bola pro seguinte lado: o que tomamos por real anda contaminado demais com o inatingível "Padrão Fifa".

Fico aqui a calcular quanta infelicidade não brota daí. É provável que quase toda.

Porque, que em algumas coisas brilhamos (por esforço ou por natureza mesmo), ah, brilhamos. Que há dias e momentos e até fases fantásticas que rolam com a gente, ah sim, muitas. Que tem uma ou outra relação na nossa vida de onde praticamente só vem coisa boa, ah tem. Que há gente com qualidades e capacidades fora do comum por aí, ah, tem sim.

Mas a maior parte do que vivemos, quando não é feia, torta, gorda, suja ou incompleta (ou tudo isso junto), está por ali, na coluna do meio mesmo, nem tão bom, nem tão ruim; nem tão bonito, nem tão feio; legal, mas com faturas a pagar; te satisfazendo, mas com coisas a aturar.

A maior parte de nós se sai razoável, e nem um dedinho a mais, em quase tudo que faz, em quase tudo que é, com um ou outro ponto de destaque aqui e ali. And that´s it.

Como disse Eliane Brum em uma de suas fabulosas colunas (essas sim com muito pouco de imperfeitas...), “é a vida, com sua mistura de tragédia e de comédia e um bocado de espaços vazios e de repetições.” (“A vida não começa aos 40” da coletânia “A menina quebrada”).

E isso não é problema. Não é problema a vida ser "na média", estarmos "na média" em inteligência, esperteza, beleza, paciência, sorte. O problema é achar que só isso não basta. Porque pode bastar bastante (ui, ficou horrível, mas é exatamente o que quero dizer). Dentro da "boiada" do mundo, o joy em viver pode ser enorme. Não é só o melhor que sai pra dançar. (aliás, esse, dependendo, está muito ocupando lustrando a sua perfeição). Sacar isso, sem sacanagem, é, pra mim, o maior pulo do gato que uma pessoa pode dar.

E por isso gosto tanto da expressão “suficientemente boa” do Winnicott, o Freud da psicologia infantil, referindo-se à mãe ideal, que não é a perfeita (quer dizer, a que tenta ser perfeita obsessivamente porque a perfeita existe tanto quanto papai noel).

Segundo ele, essa passa do ponto e também prejudica o filho tanto quanto, ou mais, que a negligente. A mais desejável é a que se sai suficientemente bem. Falha aqui e ali, dá as suas mancadas, cultiva uns egoísmos de estimação (principalmente, não se abandona), mas, no que é essencial, mais acerta que erra. É suficiente. E os filhos devolvem a ela a humanidade que não escondeu tendendo a ser emocionalmente mais sãos. Ele aposta nisso e eu, dentro do meu quinhãozinho de experiência, assino embaixo.  

Pois Winnicott fala da mãe suficientemente boa, e não perfeita, e eu estenderia esse conceito a tudo. Tento, nem sempre consigo, limitar meu interesse nos meus “desempenhos” à verificação do “suficientemente”. "Tá rolando satisfatoriamente?”, “é mais bom que ruim?”, ou o popular e maravilhoso “tem dado pro gasto?”. E, finalmente, "eu tenho me divertido?" - e diversão entra aí numa acepção bem larga. Mas confesso que a tentação de me ver querendo alguns pódiuns é grande –  (e tomara que você, se for o caso, também confesse e, assim, transparentes na nossa imperfeição, a gente abra espaço pra se livrar desses pódiuns fantasmagóricos de vez). O conto da carochinha plantado na nossa cabeça a esse respeito desde que nascemos, somado às novelas da Globo, à Caras e, mais recentemente, ao Facebook, dão um trabalho danado nesse sentido. Um porre.

Na verdade, ninguém anda tendo muita permissão (dessas de verdade, não da boca pra fora) para ser imperfeito - sequer mediano. Se minha beleza não chama grandes atenções, dale ralação, investimento pra isso. Se desconfio que não sou o cara fodão, (me) mato por um cargão, ou vou meditar de cabeça pra baixo no Himalaia (não interessa o que é eleito pra me sentir mais especial, interessa que a ressonância que se busca é a de fora, não a de dentro). Bonito o suficiente, inteligente o suficiente, dinheiro o suficiente, tô fora. Quero o melhor. Nem que o preço seja virar uma caricatura michaeljacksoniana de mim mesmo (e o rosto deformado não é o mais grave).

Enfim. Parece preocupante à beça quando o imperfeito é varrido tão pra debaixo do tapete assim. Nosso tapete tá ficando curto pra tanto bagulho. Vai sair voando - e cabe lembrar que quem voa em tapete normalmente é gente muito amarga... (;

Quando só o perfeito vale, só o perfeito importa, só pelo perfeito se justifica viver, a imagem que me vem é da gente aumentando ao máximo a chama embaixo da panela de pressão. Vai estourar. E aí o estrago na cozinha vai ser centenas de vezes pior que aquela porta do armário que não fecha direito, o que nos irritava seriamente e a gente não sossegou até consertar e tudo parecer de novo... perfeito.  

O ponto ótimo (e aqui a mania de perfeição acaba de me pegar no contrapé) parece ser esse sutil, delicado, difícil, mas importantíssimo entendimento. Tudo é imperfeito  - e isso, ao invés de entristecer, há de libertar. Tendemos a  buscar o melhor – e isso, ao invés de inquietar, deve dar é tesão. Conseguiu o melhor? Festa. Puxou demais pra conseguir? Perdeu. Não conseguiu? Bem-vindo ao clube: garanto que 90% da humanidade está com você (se bem que só metade compareceu; a outra, é fato, está ainda correndo atrás do rabo não conseguindo relaxar).

Ps: li e reli esse texto e tenho a sensação que ele está bem desconexo. De regra, esperaria até amanhã pra postar, ler de novo, tentar concatenar melhor as coisas. Mas, como exercício do que tentei falar, lá vai ele assim mesmo, arriscando ter saído um tanto "feio, torto, gordo, sujo" e certamente "incompleto".

sábado, 31 de agosto de 2013

(In) temperanças



Sigo devagarinho uma vida de pequenas andanças
Pego carona no voo dos pássaros e nado com os peixes
A calmaria da tartaruga aquieta o meu respirar
Quem me dera por um momento ter pés como os das corças
Elas andam em lugares altos e não ficam tontas
Mas é na velocidade do guepardo que corro para o alvo
Na bagagem levo a bússola que faz o norte virar sul
E eu já não sei se prefiro o leste ou o oeste
Só sei que sonhei os sonhos de criança
E que o sol que bateu na janela do meu quarto despertou-me já adulta
Travo uma batalha contra o diluído tempo e vou ao seu encontro
Reza a lenda que ele é o senhor do destino e um dos deuses mais lindos
Ele não engana e adverte haver pedras no caminho
Nelas tropecei e até caí
“Levanta-te e anda” é a voz que ecoa de dentro para fora, acalentando o coração
Mas também há flores e bem-te-vis
Há jardins, aromas e sabores no percurso
Nesse lendário calendário não há espaço para o inodoro, insípido, incolor
E o insosso nada atrai
Vida que é vida tem um punhado de temperança e uma queda pela insensatez
Vida que é vida traça novas rotas de sal e açúcar
Nem só de doce e salgado meu caminho se fez
Pimenta, gengibre, cravo e canela,
Misturam-se ao longo da estrada
Compõem novos passos de dança
Já não me importo se a linha do horizonte me distrai
O que importa é que nessa longa estrada eu vou
E que nessa estrada eu também sou tudo aquilo o que as minhas (in) temperanças me permitirem viver.
Caroline Sena